sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Como o Coelho e o OVO viraram SIMBOLOS DA PASCÔA

 

Para a Igreja Católica a Pascoa celebra a passagem da morte para a vida.

Para os judeus a Pascoa comemora a libertação da escravidão.

Juntando tudo a Pascoa é uma celebração que comemora e celebra o inicio de uma nova vida.

E como um coelho e ovos de galinha foram aparecer nesta celebração?

E Ovos de Chocolate ?

Existem varias explicações, mas posso lhe dizer que o Coelho, surgiu na nossa tradição porque nos meses de primavera (janeiro, fevereiro e março) o povo europeu via na Lua uma Lebre e faziam uma festa para a “fertilidade da natureza”.  Como fomos colonizados por povos europeus essa tradição chegou até o Brasil, mas ao invés da lebre temos o “Coelho” que se reproduz muito, fértil e fecundo. Assim como deve ser nossa fé.

O ovo é símbolo da origem da vida e entrou nesta celebração porque na Europa as galinhas passavam o inverno sem colocar ovos e só retornavam a por ovos no período que antecedia a Pascoa. Até esta data os poucos que estavam disponíveis eram zelosamente guardados para dar as crianças, idosos e doentes. Quando chegava a época da Pascoa, já havia fartura, as galinhas já estavam colocando ovos normalmente e então os ovos podiam ser distribuídos como presentes. No principio só cozidos. Depois os coloriam com ervas. Depois começaram a enfeitar com desenhos, encher de balas e chocolates.

Na cidade de RODEIO - SC existe uma tradição de colorir ovos com ervas, cascas, anilina. Pintar, colorir, enfeitar, fazer cestas com motivos de Coelho e Galinhas.  No passado as brincadeiras e “guerras” de ovo também faziam parte desta comemoração.

Desde o começo do ano,  as pessoas começam a guardar as casquinhas dos ovos que eles chamam de “SBROCIA”. Elas são lavadas, coloridas e recheadas com balas, amêndoas, amendoins açucarados, chocolate etc...  Uma festa. Na véspera da Pascoa as crianças devem deixar uma cenoura num local onde o “CONICIO”, coelho da pascoa irá passar e deixar ovos para todos.

Esta tradição é popular e tradicional em todo o Vale do Itajaí e ganhou repercussão nacional nos últimos anos com a Osterfest em Pomerode.

 


PARA SABER MAIS UM POUCO:

Você deve saber que a Cultura de um local é formada pela mistura de várias culturas que existiram anteriormente em determinado local e, a essa mistura, damos o nome de: Sincretismo. É quando adquirimos partes da cultura de um povo e a misturamos com a nossa cultura combinando diferentes praticas e crenças que resultam em algo novo e isso acontece de forma natural, orgânica. Acontece em todas as culturas da humanidade quando elas se encontram. A ela vão se unindo novas ideias e acontecimentos para resultar numa nova “Cultura” ou “tradição” que atende a expectativa de um grupo de pessoas.

 Por este motivo podemos dizer que “Minha Cultura Mostra Quem Sou”.

 Esta frase esta escrita no Museu do Folclore Ângela Savastano em São Jose dos Campos, e é:

Uma afirmação poderosa que reflete nossas tradições, costumes, língua, crenças e hábitos. Moldam nossa identidade e nos conecta a um grupo, revelando nossa historia, valores e o modo como vemos o mundo, sendo a cultura a espinha dorsal de quem somos, individualmente e coletivamente, incluindo o folclore, a culinária e as expressões artísticas.”.

 Quando falo desta “cultura” não estou me referindo à cultura em termos de conhecimento de livros, ou estudo e que separa as pessoas. O contrario é verdade, pois esta cultura que falo, ela nos identifica com hábitos e tradições que trazemos dentro de nós e que às vezes nem percebemos, nem damos valor, mas que são importantíssimas e nos faz seres únicos, originais e especiais.

 Os povos antigos acreditavam que os astros como o Sol, a Lua e as Estrelas eram “seres” ou “elementos” que representavam ou estavam a serviço de um Deus.

Assim, no hemisfério norte (ex: Europa), nos períodos de inverno quando a luz do sol quase não aparecia, ficava fraca e durava poucas horas, as pessoas temiam que o “Sol” poderia nunca mais voltar e todos podiam morrer de frio e fome pela falta de sua luz e que isso seria um castigo de um determinado deus.

 Quando percebiam que o Sol retornava, eles faziam grandes celebrações, pois isso significava que a vida retornaria. As flores, cereais, frutos cresceriam novamente e haveria alimento para todos: homens e animais e se sentiam abençoados por este Deus.

Perceberam então que isto ocorria de forma cíclica.

 Assim, desde tempos imemoriais várias culturas celebravam o que hoje chamamos de “Equinócio da Primavera”. O retorno do sol após um período de frio e neve.

Tudo isso que conto ocorria e ocorre na parte Norte do nosso planeta. Aqui no hemisfério Sul tem as mesmas coisas acontecendo porem em épocas diferentes. Ou seja, quando é primavera no Hemisfério Norte, aqui no Hemisfério Sul é o “outono”, quando aqui é inverno lá é verão. E, como essas tradições já existiam a milhares de ano no hemisfério Norte e nós temos uma civilização “ocidental” nós as cultivamos nas mesmas datas que eles, mas com um “olhar” diferente.

 Mesmo na nossa “cultura” brasileira, o Natal é representado por neve e noites frias. Ainda cobrimos nossas arvores de natal com algodão para simbolizar a neve, o frio. Enquanto enfeitamos nossa arvore, vamos derretendo com um calor de 300C a 350. Mais complicado ainda deve ser para o “Papai Noel” que tem de usar aquela roupa de veludo vermelho.

É a Tradição!

 Várias culturas já celebravam há milênios, o que celebramos atualmente como “Pascoa”.

 Os nomes mudavam, mas a “essência de retorno à vida”, fertilidade é a mesma, pois a vida reflorescia, a grama começava a renascer depois de ter sido coberta pela neve.

  Até os dias de hoje existe uma tradição no Norte da Itália de “acordar o pasto”.

 As crianças, acompanhadas de seus familiares, percorrem os pastos da sua região onde o gado é criado. Elas percorrem os pastos fazendo algazarra e levando sinos e campanas barulhentas para acordarem a grama que ficou meses dormindo sob um grande manto de neve.  Lindo não é?

 Em dezembro as culturas pagãs do passado celebravam o retorno do Sol que começava a esquentar a partir daquele mês. Essa celebração se chamava “Sol Invictus”; sol invencível.  A cultura cristã aproveitou a data que eles já celebravam seus deuses para também celebrar e comemorar a vinda de “Jesus Cristo” ou a Vitória de Cristo, nosso sol, contra a morte.

 Jesus então é o nosso Sol, símbolo de fé, força, vida, luz, renovação, nosso alimento. Nosso “Ovo da Pascoa”. Pois o ovo é a origem da vida. E, Assim como uma coelha gera varias ninhadas por ano, assim deve ser a fé Crista: veloz e fértil.

Mas tem mais...

 Assim, pouco a pouca as datas se fundiram e as celebrações de diversas culturas aconteciam no mesmo período e tinham em parte a mesma essência (renovação, vitória, fecundidade, fertilidade) e, os símbolos, acabaram se fundindo também.

Isso aconteceu com as datas do Carnaval, Pascoa, Natal e outras.

 O Coelho da Pascoa – Porque é um símbolo da Pascoa?

 Cada festa, cada ritual tem seus símbolos e isto existe no mundo há milhares de séculos. Os povos antigos também tinham esses símbolos.

 Nesta época em que celebravam a chegada da Primavera os povos do hemisfério Norte, Europa, por exemplo, observavam na Lua um grande desenho de uma “Lebre”! E ela acabou se tornando um aviso, símbolo de alegria, fertilidade e renovação, pois quando a Lebre aparecia na Lua às pessoas sabiam que um período de fartura ia (re)começar.

 As antigas culturas usavam a Lua, o Sol e as Estrelas para se orientarem. O retorno gradativo da luz do Sol no mês de dezembro trazia a esperança de frutos, alimento, abundancia e fertilidade e, isso devia ser comemorado. Era o Deus Sol que renascia e, comemoravam com a chegada do sol os deuses e deusas da fertilidade, agricultura etc.

Então pela observação do Céu, do clima, da duração do Sol e da Lua no céu se faziam as festas.

 Na data que hoje comemoramos nossa Pascoa eles já comemoravam a deusa “Astarte” como símbolo de fecundidade. A festa era comemorada no “1Domingo após a 1ª Lua cheia após o Equinócio da Primavera”. E nós também marcamos nossa comemoração da Pascoa da mesma maneira, e, por a data ser regida pela posição da lua no céu, ela nunca tem um dia certo, ela é móvel e, pode cair num domingo entre o mês de março ou de abril.

 A data da Pascoa até hoje é assim. É regida pelo calendário Lunar e, é a partir desta data da Pascoa, que outras datas também são marcadas; um exemplo? O Carnaval!

 Aqui no Brasil conhecemos mais os coelhos do que as lebres e então, pouco a pouco o Coelho da Pascoa se tornou um dos nossos símbolos. Afinal, os Coelhos são férteis e se multiplicam rapidamente assim como nossa fé deve ser fértil e se multiplicar.

(Aqui no Brasil podemos ver a “lebre” em qualquer época do ano e noite de lua cheia)

 Ovos de Pascoa

De onde vem à tradição dos ovos de chocolate que presenteamos na Pascoa? Coelho não põe ovo e muito menos de chocolate!

 Liliana morava num pequeno vilarejo do Norte da Itália chamado “Feltre” e todas as manhas tinha de tratar os animais. Na época do frio ela saia da cama quentinha, colocava uma botina e ia cuidar dos animais que estavam na estalagem bem próxima a sua casa. Seus pés enterravam até quase a altura dos joelhos na neve. De pouco adiantava as botinas que tinha. Às vezes era melhor ir descalça mesmo... Na volta alguém lhe ofereceria uma bacia com agua quente para fazer um escalda pés. Ela tratava da vaca, das cabras e das galinhas.
Ela reclamava com seu pai do porque não faziam como os outros camponeses que tinham suas vacas e galinhas no andar térreo da sua casa. Afinal, nesta época do ano nem as galinhas nem as vacas produziam muita coisa. “O leite era escasso, praticamente inexistente e as galinhas não colocavam nem um ovo e estavam tão fracas que mal ficavam em pé.”

  “A manha esta muito fria. Mais que o normal e Ítalo não queria sair da cama. Ele fechava os olhos e sonhava com o momento em que ele poderia comer aqueles três ovos que sua mãe estava juntando e guardando como fossem feitos de ouro. O inverno estava tão rigoroso que elas não havido colocado nem um ovo até a semana passada. Quase dois meses sem leite e sem ovos. Nesta semana os ovos começaram a reaparecer e sua mãe os guardava como uma preciosidade. Ficavam ali no caso de uma necessidade. Se ele ou seus nonos ficassem doentes. Se ficasse doente ele teria seu ovo... Mas ele não estava doente. O jeito era esperar mais uns dias quando sua mãe juntasse mais alguns ovos. Então ela os cozinharia com beterraba ou cascas de legumes. Eles ficavam coloridos e eles poderiam comer após terem chegado da Missa de Pascoa. Mas, ele pensava... Será que a Pascoa vai demorar?”

 “Miriam e Iracema rolam na cama porque o calor e o mormaço não as deixam dormir. Estão em Rodeio 50, na casa de sua irmã Ármide, recém-casada com o Tuca. Elas moram no Rodeio 12 e sua mãe as deixou dormir na Ármide porque amanha é dia de Pascoa.
Elas estão ansiosas. Aguardam as surpresas da Ármide.
Ármide sempre foi uma artista, caprichosa! Desde solteira ela aprendeu a fazer galinhas, coelhos, vacas e cestas de papelão para a Pascoa. Ela as colore, recorta, enfeita com algodão. Ela guarda as casquinhas dos ovos (sbrocie) que ela coloriu para no dia da Pascoa esconder no quintal e elas irem procurar. Uma delicia!
Depois sabem que vão para casa para acompanharem sua mãe na missa.
Com certeza vão encontrar seus tios Sílio e Aleixo, irmãos de sua mãe que vão querer fazer a brincadeira do ovo com elas.
Sua mãe já deve ter preparado os ovos cozidos e coloridos com ervas e cascas de cebola. Seus tios colocam os ovos cozidos em pé no canto da cozinha e tentam quebra los usando umas moedas de reis, a famosa pataca. Quem consegue quebrar o ovo com a pataca pode come lo e elas ficam no entorno para recolherem as moedas. Sempre é divertido. “Depois sua mãe com certeza irá servir o almoço para toda a família.”

 No Hemisfério Norte os meses que antecedem a chegada da Primavera são meses de muito frio e neve. Para proteger suas “criações” como vacas, galinhas, cabras e outros animais domésticos, as pessoas os traziam para perto de suas casas e os colocavam em algum lugar mais quente e protegido. Quando enfim, devagarinho o sol retornava, as galinhas eram as primeira a saírem dos seus refugio e recomeçavam a colocar “ovos”. Esses primeiros ovos que as galinhas recomeçavam a colocar entre fevereiro, março e abril eram guardados para dar de “presente” para as pessoas mais frágeis como crianças, idosos e enfermos. No começo só ofereciam o ovo, mas com o tempo começaram a pintar com tintas vegetais como casca de cebolas ervas beterraba etc...

 Com o passar do tempo à tradição de “pintar ovos” se incorporou como um presente da Pascoa. Cada cultura começou a enfeitar o “OVO” de uma forma diferente, umas de forma simples, outras de forma mais elaborada, bonita e/ou divertida porem todas lindas e representando sempre a alegria, a fertilidade.

E o “ovo de chocolate”? Como aconteceu?

O chocolate só chegou à Europa depois de 1.500 após o descobrimento das Américas e para os índios era uma bebida ritualística, amarga e refrescante. Os espanhóis foram os primeiros europeus a provarem essa mistura e acrescentaram mel para conseguirem beber.

Foi somente em 1873 que se misturou ao cacau, leite e açúcar, moldando o na forma de um ovo e assim surgiu o Ovo de Chocolate que foi incorporado a nossa Pascoa com o passar do tempo.

 Com o passar do tempo àquilo que era um alimento caro, consumido somente pela elite começou a ser consumido por todas as idades, mas principalmente por crianças.

Assim, a origem do ovo na Pascoa tem a ver com as galinhas que restabelecem a abundancia naquele período. Então: Ovos e Galinhas foram incorporados aos símbolos da Pascoa. E o Coelho, bem o coelho é a lebre da época de “Astarte”. Esta lá em cima, na lua, olhando para nós. Claro que ele some de lá e vem distribuir os ovos de chocolate para as crianças aqui na Terra.

 Conhecendo as historias da humanidade podemos ver que para recebermos nossa cesta de chocolate toda enfeitada e cheia de ovos de pascoa, a humanidade caminhou milênios.

Claro que se formos falar sobre a celebração e tradições da Pascoa Cristã teremos outras historia, todas ricas, emocionantes e lindas.

Lá no começo do texto eu falei em “sincretismo”. E foi isto que aconteceu aqui conosco e principalmente quem é cristão.

Os povos pagãos já comemoravam estas datas marcadas pelo sol e lua. Com a chegada do Cristo as pessoas queriam celebrar estas novas datas, mas como comemorar estas datas quando a maioria dos povos comemoravam outras coisas?

Eles então perceberam que podiam aproveitar estes períodos de festas pagas e comemorarem as suas festas agora em honra a “Cristo” e assim aproveitavam esses dias de “feriado pagão” e comemoravam acontecimentos da vida de Cristo. Enquanto os pagãos faziam suas festas e comemoravam seus deuses os Cristãos comemoravam as datas importantes da vida de Cristo. É a fatos parecidos com este que se chamamos de “sincretismo”.



dorisbonini@gmail.com

 

 

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