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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Os Maias e os Maios e a Festa da Santa Cruz


Na minha busca pela origem da Festa da Santa Cruz no Brasil encontrei este texto. Eu não poderia descrever melhor e por este motivo coloco aqui na integra o texto colhido em :



"Ernesto Veiga de Oliveira descreve com rigor esse costume do povo português que tem algumas nuances regionais.

Segundo ele, o 1º de Maio é o Dia das Maias e comemora-se em Portugal, de um modo geral, pela oposição das «Maias», ou seja, de giestas ou flores, sob diversas formas, em portas e janelas e noutros locais. Ao contrário de outras regiões, em Trás-os-Montes surge ao lado de outras práticas, que são independentes mas de significações convergentes.

Na faixa ocidental atlântica do País, não existe qualquer prática alimentar associada. Mas em Trás-os-Montes e nas Beiras as «Maias» estão associadas às castanhas, que muita gente guarda de propósito para esta data. Segundo Jorge Lage, no 1º de Maio devem-se comer castanhas. Caso contrário, ao passar-se por um burro, este atira-se à pessoa e morde-a Diz o ditado «quem não come castanhas no 1º de Maio, monta-o o burro». Isto porque Maio é o mês dos burros, como afirma o povo. O uso de comer castanhas secas em Maio, terá a ver com a tradição muito antiga de no 1º dia o chefe de família ir à fonte e esconjurar ou afastar com favas pretas os espíritos (o «Maio») da sua família. Daí a expressão «Vai à feira e traz-me as maias (as castanhas piladas)».

De um modo geral, o cenário das várias celebrações cíclicas compreende cerimónias de véspera. A colocação de giestas faz-se no dia 30 de Abril para que as casas estejam floridas no momento em que começa o dia, para o «Maio», o «Carrapato» ou o «Burro» não entrarem. O «Maio» ou o «Burro» são entidades nocivas, cujo malefício se pretende conjurar com ma oposição de flores ou a manducação de certas espécies.

Em Trás-os-Montes, além de se enfeitarem as portas das casas com flores de giestas, as raparigas adornam um menino que dizem repre­sentar o “Maio-Moço” e passeiam-no pelas ruas com grande ruído alegre, cantando e bailando em volta dele.

A origem da tradição das Maias perde-se no tempo e pode ter várias explicações. Segundo alguns, a Maia era uma boneca de palha de centeio, em torno do qual havia danças toda a noite do primeiro dia de Maio. Por vezes, podia ser também uma menina de vestido branco coroada com flores, sentada num trono florido e venerada, todo o dia, com danças e cantares. Esta festa, de reminiscências pagãs, foi proibida várias vezes, como aconteceu em Lisboa no ano de 1402, por Carta Régia de 14 de Agosto, onde se determinava aos Juízes e à Câmara "que impusessem as maiores penalidades a quem cantasse Maias ou Janeiras e outras coisas contra a lei de Deus...". Ainda segundo outros, o nome do mês de Maio terá tido origem em Maia, mãe de Mercúrio, e a ele está ligado o costume de enfeitar as janelas com flores amarelas.

Seja como for, todos estes rituais pagãos estavam ligados ao rito da fertilidade para com o novo ciclo da natureza, à celebração da Primavera ou ao início de um novo ano agrícola. Mais tarde, houve necessidade de lhe incutir algum sentido religioso, promovendo a sua ligação à Festa da Santa Cruz ou ao Corpo de Deus. Esse facto pode justificar a lenda do Alto Minho, segundo a qual Herodes soube que a Sagrada Família, na sua fuga para o Egipto, pernoitaria numa certa aldeia. Para garantir que conseguiria eliminar o Menino Jesus, Herodes dispunha-se a mandar matar todas as crianças. Perante a possibilidade de um tão significativo morticínio, foi informado, por um outro "Judas", que tal poderia ser evitado, bastando para isso, que ele próprio colocasse um ramo de giesta florida na casa onde se encontrava a Sagrada Família, constituindo um sinal para que os soldados a procurassem e consumassem o crime... A proposta do "Judas" foi aceite e Herodes tratou de mandar os seus soldados à procura da tal casa. Qual não foi o espanto dos soldados quando, na manhã seguinte, encontraram todas as casas da aldeia com ramos de giesta florida à porta, gorando-se, assim, a possibilidade do Menino Jesus, ser morto.

Talvez resultado desta lenda, hoje em dia ainda é possível observar em algumas zonas do nosso país, a colocação de ramos de giestas em flor, ou até mesmo coroas feitas de ramos de giestas, conjuntamente com outras flores e enfeites coloridos, nas portas e janelas das casas ou nos automóveis, na noite de 30 de Abril para 1 de Maio.

Nos variados aspectos, por vezes tão distintos, das celebrações do 1º de Maio, ter-se-ia pois operado um sincretismo de práticas e crenças, talvez de origens diferentes mas todas convergentes, recobrindo a obscura ideia, que subsiste no espírito do Homem, da necessidade de desencadear formas efectivas de protecção e de esconjuro a opor à insegurança da vida e à omnipresente ameaça do mal."



obs : A giesta é um arbusto usado tanto para decoração como para fazer cordas. outra caracteristica interessante é que é um arbusto usado pra restaurar a fertilidade de terrenos onde os cereais são cultivados. Segundo a crença em Portugal a giesta tem a propriedade de "afastar o diabo e o mau olhado das casas", e afastar os carrapatos. Tambem conhecida como "maia" ou vassoura de bruxa.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rei Momo e Pereirões



(Dóris Bonini)


Depois de tantas festas lá estou eu, voltando ao Piraquara !

O pessoal já esta  se preparando para botar o bloco na rua: O Pirô-Piraquara

Este é o meu terceiro ano, mas o Pirô já sai há  27anos !

Vendo aquele “recomeço de agitação”   lembrei da  teoria que desenvolvi  e que volta e meia “ martela” nos meus pensamentos e me faz pensar, ou  melhor dizendo,  me faz ter a certeza da verdadeira “origem dos bonecões”.

Sei que existem inúmeras histórias, lendas, versões para o aparecimento desses enorme bonecos feitos de papel, vime, jornal, massa etc...
Existem relatos dos “cabeçudos”,  “gigantones” em Portugal assim como em toda a Europa e nos EUA. Em Portugal  consegue-se  localiza los  no século XIII ,  aqui no Brasil os mais famosos são os de Olinda.

Eu me lembro desde pequena da figura constante do Reio Momo nos carnavais. Pode se dizer  com certeza que onde tem carnaval no Brasil também tem Rei Momo e sua eleição é acompanhada com muito interesse.
Alguns atributos são indispensáveis  num verdadeiro Rei Momo tais como ser grandalhão, obeso, alegre, animadíssimo e apaixonado por carnaval.


Tenho para mim que nada se cria, tudo se transforma e nós ainda somos os mesmos.  As nossas  manifestações ainda são as mesmas de milênios atrás. Lógico que elas vestiram uma roupagem diferente,  mas representam e nos fazem ter o mesmo sentimento daqueles seres que viviam no passado longínquo...  

É nossa mente ancestral... repaginada!

Alguem disse que :

"... é possível perceber que as emoções associadas a uma atividade frequente e aparentemente simples evidenciam um complexo entrelaçamento entre aspectos biológicos e culturais"(1)
É a deusa Mnemósine, personificação da "Memória" , irmã de Cronos e Ocean. Omnisciente ela sabe " tudo aquilo que foi, tudo aquilo que é, tudo aquilo que será." Quando possuído pelas Musas, o poeta inspira-se diretamente na ciência de Mnemósine, isto é, no seu conhecimento das "origens", dos "primórdios", das genealogias. " "Com efeito, as Musas cantam  o aparecimento do mundo, a génese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado assim desvendado é mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Recuando até ele, a rememoração procura, não situar os acontecimentos num quadro temporal, mas atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial de onde proveio e que permite compreender o devir no seu conjunto." (2)

Enfim tudo o que foi escrito acima é para preparar vocês para dizer que a minha teoria e a de que os Pereirões, Gigantões  etc... se originam das festividades do  "Reio Momo". Não desse Rei MOMO atual, afinal ele também é originário desse "Momo ancestral" a que me refiro. Enfim eles representam a mesma coisa! Os Pereirões são os Reis Momo do carnaval, que vieram de costumes ancenstrais.

Aqui vão as minhas explicações: A ligação dos Pereirões com o Rei Momo.
No ano retrasado quando eu fazia pesquisa de campo sobre o carnaval de SJC e arredores o Benê , um Mestre na arte dos Bonecões, sempre me dava noticias de sua pesquisa sobre esses bonecões. 
Foi em um desses dias que ele comentou  que  havia descoberto que não haviam Pereirões muito antigos e ele acabara de descobrir o  porque !

 Os Bonecões mais antigos que ele havia encontrado   na nossa região eram da cidade de São Bento do Sapucay e da década de 80 (1980).  A principio estranhei esta descoberto pois esta é uma tradição bem antiga aqui no Brasil, e me perguntava o  porque  não se encontrava  nenhum dos Pereirões das decadas anteriores ?

A principio pensei que eles não existiam porque eram feitos de papel e se deterioravam com facilidade, ou porque eram muito baratos de se fazer...  Bene porem me contou que eles não existem  porque naquele tempo  era  costume no ultimo dia de carnaval  jogar os Pereirões no rio... ou seja, no ultimo dia de carnaval eles afogavam os bonecos...  Destruíam, imolavam !

 Um novo boneco devia ser feito no próximo ano.

Este relato acima se encaixa como em um querbra cabeça com o relato abaixo:

Maria Apparecida Urbano, escritora,  é antes de tudo uma carnavalesca. Uma historiadora apaixonada pelo carnaval. Em Fevereiro de  2013 fiquei  encantada com sua palestra e com o livro que ela escreveu sobre o carnaval  e foi lendo este livro que algumas peças desse quebra cabeça começaram a se juntar  e formei então esta minha teoria.

 Cida Urbano nos conta em seu livro “Carnaval e Samba em Evolução na cidade de São Paulo”, sobre a origem do rei Momo.

Transcrevo aqui  uma parte do livro onde  Cida Urbano nos fala sobre o Reio MOMO:

“O Carnaval abre espaço para a alegria explicita, que transparece nas figuras dos palhaços e do Reio MOMO.

E mais adiante :


“ A história coloca o nascimento da figura carnavalesca do Reio MOMO na mitologia grega. Momo era o deus da galhofa, do delírio , da irreverência e da pilheria e, por esse motivo, foi expulso do Olimpo, a morada sagrada dos deuses.
Por serem suas brincadeiras por demais inconvenientes e zombeteiras, perdeu a função de servidor de Zeus. Desterrado da morada sagrada, foi mandado para a terra, onde continuaria a fazer as suas “reinações”. Por ocasião das festas romanas – saturnais – o mais belo jovem soldado, ao ser coroado Reio Momo, recebia um tratamento privilegiado : comer, beber e divertir-se até a exaustão... Porém, ao acabarem as festa o “alegre” monarca era levado ao altar de Saturno e ali sacrificado” (3)


Enfim, juntando o que Benê descobriu na cidade de “Monteiro Lobato” onde eles afogavam os bonecões no ultimo dia de carnaval com a história do Rei Momo na festa romana – saturnais- podemos dizer que os nossos Pereirões antigos eram e são a representação ancestral do Rei Momo, sendo assassinado no ultimo dia de Carnaval.


Será que nossos Pereirões são a representação do Rei MOMO? Será que era por esse motivo que eles afogavam os Pereirões no ultimo dia de carnaval?
O que você acha ? Me dê sua opinião !


  



(3) Carnaval e Samba em Evolução na cidade de São Paulo - pag 53