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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rei Momo e Pereirões



(Dóris Bonini)


Depois de tantas festas lá estou eu, voltando ao Piraquara !

O pessoal já esta  se preparando para botar o bloco na rua: O Pirô-Piraquara

Este é o meu terceiro ano, mas o Pirô já sai há  27anos !

Vendo aquele “recomeço de agitação”   lembrei da  teoria que desenvolvi  e que volta e meia “ martela” nos meus pensamentos e me faz pensar, ou  melhor dizendo,  me faz ter a certeza da verdadeira “origem dos bonecões”.

Sei que existem inúmeras histórias, lendas, versões para o aparecimento desses enorme bonecos feitos de papel, vime, jornal, massa etc...
Existem relatos dos “cabeçudos”,  “gigantones” em Portugal assim como em toda a Europa e nos EUA. Em Portugal  consegue-se  localiza los  no século XIII ,  aqui no Brasil os mais famosos são os de Olinda.

Eu me lembro desde pequena da figura constante do Reio Momo nos carnavais. Pode se dizer  com certeza que onde tem carnaval no Brasil também tem Rei Momo e sua eleição é acompanhada com muito interesse.
Alguns atributos são indispensáveis  num verdadeiro Rei Momo tais como ser grandalhão, obeso, alegre, animadíssimo e apaixonado por carnaval.


Tenho para mim que nada se cria, tudo se transforma e nós ainda somos os mesmos.  As nossas  manifestações ainda são as mesmas de milênios atrás. Lógico que elas vestiram uma roupagem diferente,  mas representam e nos fazem ter o mesmo sentimento daqueles seres que viviam no passado longínquo...  

É nossa mente ancestral... repaginada!

Alguem disse que :

"... é possível perceber que as emoções associadas a uma atividade frequente e aparentemente simples evidenciam um complexo entrelaçamento entre aspectos biológicos e culturais"(1)
É a deusa Mnemósine, personificação da "Memória" , irmã de Cronos e Ocean. Omnisciente ela sabe " tudo aquilo que foi, tudo aquilo que é, tudo aquilo que será." Quando possuído pelas Musas, o poeta inspira-se diretamente na ciência de Mnemósine, isto é, no seu conhecimento das "origens", dos "primórdios", das genealogias. " "Com efeito, as Musas cantam  o aparecimento do mundo, a génese dos deuses, o nascimento da humanidade. O passado assim desvendado é mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Recuando até ele, a rememoração procura, não situar os acontecimentos num quadro temporal, mas atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial de onde proveio e que permite compreender o devir no seu conjunto." (2)

Enfim tudo o que foi escrito acima é para preparar vocês para dizer que a minha teoria e a de que os Pereirões, Gigantões  etc... se originam das festividades do  "Reio Momo". Não desse Rei MOMO atual, afinal ele também é originário desse "Momo ancestral" a que me refiro. Enfim eles representam a mesma coisa! Os Pereirões são os Reis Momo do carnaval, que vieram de costumes ancenstrais.

Aqui vão as minhas explicações: A ligação dos Pereirões com o Rei Momo.
No ano retrasado quando eu fazia pesquisa de campo sobre o carnaval de SJC e arredores o Benê , um Mestre na arte dos Bonecões, sempre me dava noticias de sua pesquisa sobre esses bonecões. 
Foi em um desses dias que ele comentou  que  havia descoberto que não haviam Pereirões muito antigos e ele acabara de descobrir o  porque !

 Os Bonecões mais antigos que ele havia encontrado   na nossa região eram da cidade de São Bento do Sapucay e da década de 80 (1980).  A principio estranhei esta descoberto pois esta é uma tradição bem antiga aqui no Brasil, e me perguntava o  porque  não se encontrava  nenhum dos Pereirões das decadas anteriores ?

A principio pensei que eles não existiam porque eram feitos de papel e se deterioravam com facilidade, ou porque eram muito baratos de se fazer...  Bene porem me contou que eles não existem  porque naquele tempo  era  costume no ultimo dia de carnaval  jogar os Pereirões no rio... ou seja, no ultimo dia de carnaval eles afogavam os bonecos...  Destruíam, imolavam !

 Um novo boneco devia ser feito no próximo ano.

Este relato acima se encaixa como em um querbra cabeça com o relato abaixo:

Maria Apparecida Urbano, escritora,  é antes de tudo uma carnavalesca. Uma historiadora apaixonada pelo carnaval. Em Fevereiro de  2013 fiquei  encantada com sua palestra e com o livro que ela escreveu sobre o carnaval  e foi lendo este livro que algumas peças desse quebra cabeça começaram a se juntar  e formei então esta minha teoria.

 Cida Urbano nos conta em seu livro “Carnaval e Samba em Evolução na cidade de São Paulo”, sobre a origem do rei Momo.

Transcrevo aqui  uma parte do livro onde  Cida Urbano nos fala sobre o Reio MOMO:

“O Carnaval abre espaço para a alegria explicita, que transparece nas figuras dos palhaços e do Reio MOMO.

E mais adiante :


“ A história coloca o nascimento da figura carnavalesca do Reio MOMO na mitologia grega. Momo era o deus da galhofa, do delírio , da irreverência e da pilheria e, por esse motivo, foi expulso do Olimpo, a morada sagrada dos deuses.
Por serem suas brincadeiras por demais inconvenientes e zombeteiras, perdeu a função de servidor de Zeus. Desterrado da morada sagrada, foi mandado para a terra, onde continuaria a fazer as suas “reinações”. Por ocasião das festas romanas – saturnais – o mais belo jovem soldado, ao ser coroado Reio Momo, recebia um tratamento privilegiado : comer, beber e divertir-se até a exaustão... Porém, ao acabarem as festa o “alegre” monarca era levado ao altar de Saturno e ali sacrificado” (3)


Enfim, juntando o que Benê descobriu na cidade de “Monteiro Lobato” onde eles afogavam os bonecões no ultimo dia de carnaval com a história do Rei Momo na festa romana – saturnais- podemos dizer que os nossos Pereirões antigos eram e são a representação ancestral do Rei Momo, sendo assassinado no ultimo dia de Carnaval.


Será que nossos Pereirões são a representação do Rei MOMO? Será que era por esse motivo que eles afogavam os Pereirões no ultimo dia de carnaval?
O que você acha ? Me dê sua opinião !


  



(3) Carnaval e Samba em Evolução na cidade de São Paulo - pag 53



sábado, 31 de agosto de 2013

UM POUCO DO CORPO SECO E DE MARIA PEREGRINA

Estavamos no cemitério Maria Peregrina no dia de Corphus Christi e uma senhora me contou :

- Minha mãe trabalhava na lavanderia do Vicentina Aranha

- Eu me lembro das Festas no Vicentina Aranha. Lembro das Festas de Corpus Christi. As freiras diziam: quanto mais gente melhor para trabalhar. Aumenta a produtividade para se fazer os tapetes da produção.

- A gente usava cedrinho, era linda a procissão!

- do Padre Rodolfo a gente sabe que ele andava na chuva e não se molhava. Ele veio se tratar de tuberculose em São José dos Campos. Era um Padre Santo mesmo e muitos alcançaram graças com ele. O Seu João Porto conviveu com ele.

- Meu pai ajudava o Dr. Estrepe a fazer autopsia nessa capela (Cemitério de Santana). Naquela época não tinha geladeira, então o corpo tinha bicho, mosca e aquele mau cheiro terrível!  Eles tinham de beber pinga para poder suportar o cheiro.

- Um dia ele estava exumando o corpo de um cadáver junto com seu companheiro que se chamava “Ceguinho”, (porque tinha os olhos meio fechado), foram desenterrar um defunto. Dizia que o corpo estava todinho seco e aí o amigo dele tirou o canivete e foi cortar e não conseguia... E o canivete rangia... Quuiiii quuiii quuiiii e não conseguia cortar.

- O corpo seco era devido à pessoa tomar remédio... O Corpo seco fica pelo mundo.
Meu pai se chamava “s. c. s.”. Ele dizia que tinha coragem de carregar o Corpo Seco nas costas...

- A Maria Peregrina eu conheci.
Minha tia morava ali perto onde ela residia debaixo de uma arvore que ela morava e ela tinha um saco dela com as coisas dela, a roupa tudo!  A gente criança tinha medo dela, sabe por quê? As crianças perseguiam ela, jogavam pedrada nela, né? Ela ficava brava com eles! Então a gente tinha medo de fazer alguma coisa na gente.
As pessoas ajudavam ela, davam alimento.
As crianças... Umas tinham medo, outras jogavam pedra nela. Os meninos principalmente.
Ela não mexia com ninguém, sabe...
As pessoas falavam para ela... De dar lugar para ela ficar. Ela dizia que tinha de morar debaixo de uma arvore para pagar a promessa pra mãe dela se salvar.
Porque a mãe dela fez não sei o que lá...
Ela dizia: Eu tive essa sina de pagar os pecados da minha mãe para ela não ir para o inferno.
As pessoas queriam acolher ela, dar um cantinho... Mas ela não queria!

É uma reviravolta...  Você se vê adulta, vem no cemitério com os filhos e vê o tumulo dela sendo estudado por jovens...


D. LILI E O PAUZINHO COLORIDO


Quando D. Lili era mocinha e morava na fazenda o pai contratou uma professora para lhe dar aulas.


 Um dia, enquanto estava tendo aula, os cadernos e lápis de cor estavam espalhados sobre a mesa, chegou um menino muito pobre que se sentou perto de onde D. Lili tinha a aula e ficou um bom tempo observando D. Lili e a professora.

Finalmente ao fim da aula ele se dirigiu em tom baixo, quase como a contar um segredo e disse para D. Lili:

- “quando você tiver um pauzinho desses que você não vai ocupar muito você me empresta?”


(ele não conhecia o “lápis de cor” e ficou encantado com aquele “pauzinho colorido”.

(colhido por Doris)

FANTASMAS NO PARQUE DA CIDADE

Noite muito fria de junho, estamos saindo do Atelier do Grupo Piraquara no Parque da Cidade! Uma neblina repentina baixa sobre a cidade. 
O frio, à noite, o parque vazio, pouca luz e a neblina montaram o cenário perfeito para o Bene se lembrar de que os vigias tinham algumas histórias para me contar.
M. e W. nos contam que o Parque tem seus fantasmas. Ele já os viu por diversas vezes. São vários. Não sabe o “porque” ou “para que” eles aparecem, mas o certo é que depois da meia noite estes seres surgem.
Uma mulher de longos cabelos negros usando um longo vestido branco. Braços caídos, sempre descalça costuma aparecer após a meia noite. Sempre de perfil. Assim que é notada corre e some na escuridão. O guarda anterior foi embora...Uma noite, durante a ronda deu de cara com ela sentada na mureta do Museu... chorou... passou mal... não quis mais trabalhar ali... nunca mais voltou!


Dizem que outro  “assíduo fantasma” é um grande cachorro preto. Certo dia W. tentou enxota- lo  até perceber que o tal cachorro não era ser desse mundo. O guarda correu para se esconder dentro de um dos galpões do parque.


Em outro dia M. estava dentro da sala de segurança e vigiava o Parque enquanto seu amigo fazia a ronda.  Viu pelo monitor um Sr. bem alto, todo vestido de preto, usando um chapéu também preto. Este Sr. foi até o portão colocou a corrente no portão, enfiou o cadeado na corrente, mas não fechou o cadeado...M. assustado com aquele Sr. andando a noite no parque “passou um rádio” para avisar seu amigo a ir atrás dele e manda lo embora. O amigo procurou... procurou... e não encontrou ninguém.
Na volta o amigo viu a corrente com o cadeado quase trancado e reclamou com o M.:


- Você queria me prender lá fora?


- Não fui eu... foi um homem vestido de preto!


Uma noite dessas, altas horas, o B. passou um rádio para todos os vigias do parque procurarem por três crianças que ele estava vendo no monitor.  Pareciam estar perdidas!  Os guardas procuraram... procuraram... não acharam ninguém.


Segundo  M., em São José existem outros locais repletos de fantasmas: o sanatório "Vicentina Aranha" é um deles.


Altino Bondesan em seu livro “São José em Quatro Tempos” nos fala dos sanatórios assim:“Os sanatórios são ilhas de sofrimento, ou de esperança, onde vivem os filhos do infortúnio...”.“... episódios dolorosos de sofrimento não faltam...”.


Quantas pessoas sofreram dentro daqueles prédios, quantos jovens passaram sua juventude sentados naquelas cadeiras de lona, angustiados, sem esperança, sem um familiar ao seu lado esperando a cura, nutrindo uma esperança que se esvanecia cada vez que via o seu colega de quarto morrer?


 Não é para menos que M. nos fala que após trabalhar no Vicentina Aranha como vigia por dois anos:


- “tem cada coisa lá que é inacreditável!”


Fazendo sua ronda noturna ele ouviu as janelas do pavilhão principal bater. Pediu para o carpinteiro consertar. 
De fato durante o dia viu o carpinteiro pregar enormes pregos na janela, mas naquela mesma noite voltou a ouvir... plác, plác, plác...
Imediatamente pensou ser outra janela com o mesmo problema da que fora consertada naquele dia, porem ao chegar no local  percebe que é a mesma janela, novamente aberta, sem os enormes pregos colocados aquela tarde: plác, plác, plác!


E se você for lá a noite com certeza ouvirá...plác, plác, plác...


Atualmente o Vicentina Aranha é um local aprazivel frequentado por muitas pessoas que gostam de fazer suas caminhadas entre suas belas árvores e é porisso que todos nós conhecemos aquela pequena construção que parece uma Capela, localizada na saida da Avenida 9 de julho: o antigo necrotério; sempre fechado!


De madrugada, depois da meia noite dizem que com certeza você ouvirá estranhos barulhos vindo do prédio.
Você ouve gemidos , pessoas , moveis que parecem estar sendo arrastados!
Certa noite ele saiu decidido a descobrir o que eram aqueles barulhos.  Pegou a chave do necrotério, pôs no bolso e começou a ronda. Ao passar pelo pequeno necrotério novamente ouve os barulhos. Pega a chave, abre a porta, acende a luz e nada... absolutamente nada... nem bichos, ratos, aves, nada! Segundo ele não havia nada lá dentro que poderia provocar estes sons! 
Apaga a luz, tranca a porta e... o barulho inicia novamente...


Talvez existam pessoas mais propensas a ouvir e ver esses fantasmas: M. talvez seja um deles!


Há mais ou menos um ano atrás, M. e seu cunhado perderam um grande amigo comum. Ele ainda era funcionário do “Vicentina Aranha” e estava na portaria assistindo TV.
De repente aparece na sua frente o seu amigo recentemente falecido! Ele se assusta mas recebe o recado do fantasma que deve ser transmitido ao cunhado.
Ainda assustado assim que “o amigo falecido” desaparece ele liga para o cunhado e passa o recado:


- Oh cunhado, aquele nosso amigo falecido apareceu para mim e mandou te dizer que ele ficou te devendo algo e quer te pagar!


O Cunhado após o choque inicial começou a pensar.
Pensou, pensou e só então se lembrou de que o defunto  de fato lhe devia R$ 1.000,00 reais.
Morto de medo o cunhado respondeu:


- Arre! esquece... fala para ele que já está pago!(sabe se lá como seria essa transação, não acha?).


Segundo W. alguns atores que ensaiam teatro nos palcos do Parque costumavam rir de casos assim. Não acreditaram nele quando ele disse ter visto o enorme vaso de jardim se arrastar pelo chão de um lado para o outro, até o dia que os atores ensaiavam uma apresentação. De repente vários deles viram uma estranha mulher surgida do nada que caminhava com os braços cruzados por sobre o tablado, indo e vindo, indo e vindo até que assim como veio, ela sumiu! 

Todos ficaram assustados... e o W.concluiu :


- “A gente falava para eles (os atores), eles riram! Agora? Eles viram!”.


A neblina continua a baixar. Todos nós estranhamos a névoa cair tão rapidamente sobre a cidade. Mais que depressa resolvemos ir embora...
e nesta noite a neblina foi muito densa em toda a cidade ...
(Colhida em 28/7/2012) - Doris


DE MAE PARA FILHA / O COMEÇO DE UMA TRADIÇÃO

Um jovem marido perguntou a sua esposa se ela sabia fazer aquela receita de “filet mignon” como sua mãe havia feito para ele antes de se casarem. A esposa respondeu que sim!
De fato,  no domingo ela fez o “filet mignon” conforme sua mãe havia lhe ensinado.
Comprou o “filet mignon”, cortou as pontas do filet, deixando somente o palmito, temperou conforme sua mãe lhe ensinara e assou.
A carne ficou muito boa e o marido ficou contente  porem curioso perguntou a esposa:

- Esposa querida, porque você cortou as pontas do” filet mignon”?

A esposa respondeu:

- Foi assim que aprendi. Minha mãe fazia desse modo e então eu faço do mesmo jeito!

Curioso o marido da jovem esposa foi perguntar a sua sogra:

- Querida sogra, sua filha preparou para mim aquele “filet mignon” que você prepara divinamente e também ficou muito bom, porem eu gostaria de saber por que você ensinou a ela a cortar as pontas do “filet mignon”?

A sogra respondeu:

- Meu querido genro. Foi assim que aprendi com minha mãe, e então eu faço do mesmo jeito!

Intrigado o jovem marido foi até a avó de sua esposa e perguntou:

- Querida avó de minha esposa! A sua neta preparou para mim aquela receita de família do “filet mignon”. Ficou muito boa, mas eu queria saber o porquê vocês cortam as pontas do “filet mignon”!

A avó da esposa respondeu:

- Querido marido de minha neta. Eu não sei o porquê elas cortam as pontas do “filet mignon” quando preparam a carne, eu cortava porque a minha panela era pequena e não cabia um “filet mignon” inteiro!

Vai-se entender quais são as lógicas de uma tradição... rs rs


(colhida por Dóris Bonini de A.S/agosto 2013)


Como Rezar


... quando você reza uma oração você tem de falar : Amém, Jesus, Graças a Deus!
Esse é o segredo da oração, entendeu?  Porque você esta oferecendo pra Deus. Agora se você falar só “ Amém” você  esta oferecendo para o mal, porque ele também fala Amém.  Agora se você fala “Amém Jesus, Graças a Deus” você esta oferecendo pra Jesus, que derramou o sangue dele na cruz por nós, e a Deus, o Pai dele que é o Criador de tudo.”


(Colhida em fevereiro de 2012 por Doris)

A FIGUEIRA / ARVORES ENCANTADAS DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

O homem foi expulso do paraíso por ter comido o fruto de uma árvore proibida: a maça.  Assim que a comeram, Adão e Eva tomaram consciência da sua nudez e se cobriram com uma folha de figueira.

Conhecida em alguns lugares como Figueira em outros como Gameleira, paira sobre este gênero de árvore certa desconfiança de ser azarenta, arvore do diabo, com influencias maléficas sobre o homem.

Curiosa como sou, vou sempre em busca de explicações para as coisas que leio  e acabei encontrando que a figueira era o símbolo da nação de Israel e em uma passagem do Novo Testamento Jesus amaldiçoa a Figueira por ela não ter lhe dado bons frutos.

Será que devemos a esta “maldição” a origem da má fama da Figueira?

Com o crescimento do cristianismo no mundo e a perseguição aos judeus que se seguiu, acredito que esta seja a possível origem da má fama da figueira.

Conta-se em Minas Gerais que na Semana Santa, mais precisamente na sexta feira da Paixão, aparece debaixo da gameleira um diabo com seu tridente. Dizem que ele vem para buscar a alma das pessoas descrentes!

Certo é,  que quando eu morava em Belo Horizonte, e nos fim de semana ia passear na fazenda, as pessoas sempre me alertavam para que eu não passasse debaixo da frondosa Gameleira que lá existia, pois debaixo dela;  me alertavam :
- Costuma aparecer o diabo!
Me atemorizavam dizendo que ele apareceria na forma de um lindo rapaz e que eu só poderia saber que era o diabo se eu olhasse para seus pés que eram como as patas de um boi.

 Lembro-me de certa vez ter conhecido um rapaz tão lindo que imediatamente olhei para seus pés para garantir que ele não era o “diabo”. Triste decisão... Os pés do rapaz não eram de boi... Mas eram muito feios!
Será que ele era o diabo?

Aqui em São José dos Campos existem diversas histórias sobre a maldição das Figueiras.
Uma delas quem nos conta é a escritora Rita Elisa Seda.
Ela recolheu esta história:
“um dia 3 ciganas morreram e o grupo tentou enterra- las no cemitério, mas tiveram a permissão negada e as enterraram do lado de fora. Ali mesmo nasceram três Figueiras que tiram o sono dos moradores”.
Algumas pessoas dizem que em determinadas noites pode se ouvir o choro das figueiras...
Qual que é a gente não sabe, mas que chora... chora...

Lucilene foi criada no bairro de Santana e me contou que as Figueiras sempre assustaram a criançada. Quando ela era menina todos tinham medo de passar embaixo da Figueira. Era ato de coragem passar debaixo dela durante a noite. Quando começaram os namoricos e alguém queria ficar tranquilo sem ser interrompido era sob as folhas da Figueira, a noite, que o casal de namorados se escondiam.
Lugar mais seguro não havia!


Bibliografia:




A LENDA DA MULHER CHORONA

Era uma vez... Uma mulher que tinha sete filhos e um marido alcóolatra.

Certo dia seu marido após beber muito  matou os sete filhos e em seguida se suicidou.

A mãe chorou muito. Nunca mais conseguiu parar de chorar a perda dos filhos.

Não suportando tanto sofrimento a pobre coitada também se suicida atirando se no rio.
Dizem que durante a noite, lá,  na Vila Letônia, às vezes, ela aparece... 

Quando ela aparece ouve se seu choro. Ouve se também outro barulho... Um estrondo:

- TRRRRAMMM ... TRRRAAAM ... TRRAAAMMM. 

È a tampa do caixão que vem seguindo a Mulher Chorona.

Se vocês se encontrarem ela lhe dirá:

- Cuidado! Eu não faço nada, mas quem vem atrás de mim faz!

Com certeza ela se refere ao marido que deve vir atrás dela...


E o caixão? O que será que tem dentro do caixão ?


Não tenho nem ideia... Se voce souber me conte!


(obs: descobri que ela puxa o caixão com o corpo do marido pelas ruas)


(Colhida por Dóris de A.L / janeiro 2012)

Entrevistando D.Lili Figureira

Hoje eu, Doris e Francisco , conhecemos a famosa D. Lili Figureira.
Fomos recebidos em sua casa por sua filha Fatima.
Entramos na casa e em poucos instantes D. Lili com seus 94 ano se juntou a nós. Veio amparada pelo seu andador pois tem dificuldade para andar e  tem sentido muitas dores.  Logo a seguir vem sua filha Francisca com ar muito alegre e animado em sua cadeira de rodas.
D. Lili  senta no sofá e prestativa se prepara para as perguntas.
Nossa intenção para o dia de hoje era perguntar sobre as tradições da Semana Santa que D. Lili conhece. Tentamos nos ater a esta data, porem para mim foi quase impossível.
Ela nos conta que seu nome é Maria Benedita dos Santos. Nasceu em 20/09/1918 na “Fazenda do Barreiro ou Quilombo” em Taubaté.  Nasceu e foi criada nesta fazenda do Senhor Rei do Café, o Coronel Benedito de Matos.
Casou se com José Benedito dos Santos com quem teve 6 filhos: Francisca, Pedro, Donizete, Dimas, Fátima e Benedito.
Uma de suas avós se chamava Porcina, era filha de um Sr. Andrade (a), que veio não se sabe exatamente de onde, talvez inglês, para trabalhar na construção da Estrada de Ferro. Veio ao que se sabe fugido e casou se com Maria Clara. Foi essa avó Porcina que ensinou a D. Lili a fazer cumbucas e panelas de barro para serem vendidas no povoado quando ela tinha 6 anos.  
Sua outra avó foi escrava. Se chamava Benedita, e casou se com o Sr. José Ela nos conta que nas Quartas Feiras de Cinza os tios dela que gostavam de música, eram obrigados a literalmente “colocar as violas no saco”, pois era dia em que não podia ter cantoria. Não se tocava nada, os oratórios de dentro das casas assim como os das igrejas eram recobertos com panos roxos.
Na quaresma, todos os dias, se reuniam com os vizinhos, tomavam café com biscoitos e tinham de rezar o terço, porem ela não gostava, tinha muita preguiça, pois o terço é muito demorado.
Durante a Semana Santa, a partir das 12:00hs da quinta feira, não se trabalhava e eles iam pegar  peixe. Pescavam o peixe com uma rede feita com o cipó “timbó” e estopa e pescavam  o tanto quanto a rustica rede suportasse;  quando ela se desfazia não se podia mais pescar naquele dia.  Pescavam e fritavam o peixe  na quinta feira , pois não podiam fazer nada na Sexta feira da Paixão, nem barbear-se, brincar, pentear cabelo etc...
- nada que era bom se podia fazer na Sexta Feira !
Os peixes que pescavam eram o bagre, a traíra e o lambari. Comiam o feijão miúdo, farinha, porem não podiam  comer carne. Segundo sua avó, nem ovo se podia comer já que no futuro o ovo se transformaria em carne. Além de não comerem  carne, deviam se alimentar nos horários certos, nada de ficar comendo fora das horas estipuladas... Isto fazia parte do jejum.
Iam para a Igreja rezar na sexta feira, e no sábado a partir do 12h00min dia começavam a  comemorar a ressurreição de Cristo.
As matracas eram usadas tanto na sexta feira para anunciar a morte de Cristo como no domingo para celebrar a Ressurreição, o ritmo dos toques se diferenciavam (provavelmente um mais lento e lúgubre outro mais alegre e ruidoso).
Faziam  um bolinho de mandioca com lambari e o fritavam, assim como paçoca com banana. Esses alimentos eram consumidos na sexta feira santa durante a procissão e durante a noite da vigília. D. Lili nos diz que detestava aquele bolinho com aquele peixe enrolado. A cabeça do peixe ficava de fora do bolinho e:
- aqueles olhinhos do peixe me davam nojo!
No sábado de Aleluia, era o dia de “malhar o Judas”, e D. Lili esclarece o fanatismo das crianças em abater e estraçalhar o Judas.: Ele era recheado de balas! D. Lili nos conta que seu pai era dono de um armazém e que ela podia comer a bala que quisesse, mas:
- o meu gosto era pegar aquela caída do céu!
No domingo de Pascoa era dia de roupa nova e comer o “fogado”.
Contou-nos também que até 1930 mais ou menos tinham uma boa vida. O pai tinha armazém e ela queria estudar. Porem com a queda do preço do café no Brasil, seu pai que tinha todo o seu investimento em café perdeu tudo e ela teve de “pegar na enxada”  pela primeira e trabalhar junto com seu pai na tropa.  Faziam carvão e rapadura para vender em Caçapava e traziam mantimentos na volta. Na viagem para se alimentar a carne seca vinha pronta de casa e para fazer o arroz armavam a “Rita” (tripé onde se colocava a panela para cozinhar no mato). O fogo era feito com taquaras que quando queimava levantavam cinzas e caia na comida, então:
- comia –se carne seca, arroz e carvão!
O café que era feito nessas viagens era horrível, pois usava se 3 pedrinhas de carvão para o pó permanecer no fundo.
Sempre quis estudar porem não conseguiu. Relata-nos que seu irmão quando chegou da 2a Guerra Mundial veio com um Diploma e isto sempre foi um motivo de tristeza para ela que também desejava um . Em 2004 ela também recebe o seu tão sonhado titulo. 
Somente aprendeu  a fazer as 4 operações, mesmo assim era a responsável pela cobrança do aluguel dos tropeiros que alugavam o galpão da fazenda, além de fazer o pagamento dos funcionários.
Refere-se como muita gratidão ao Patrão que lhe ensinou as 4 operações.
Comentou também que os donos da fazenda, o Cel. Benedito de Matos não era “bem quisto”  pelos empregados, porem um de seus filhos que já havia viajado para a Europa era muito atencioso, assim como a sua esposa. Esta  Senhora fazia questão de dar o enxoval completo e o vestido de noiva para aquelas que trabalhavam na fazenda e iam se casar. Ela as acompanhava até a loja e fazia questão que escolhessem o que realmente gostavam.
Na  Pascoa, levavam comida ao presos, alguns deles ao receberem carne para comer, choravam.
Lili nos colocou diante de fatos que para julgamos normais, mas que na época eram um verdadeiro acontecimento:
1 - certa vez o bisavô, já casado, convidou as crianças para irem conhecer a novidade: o trem que vinha de São Paulo para Taubaté.  Avisou a todos para que não temessem, pois o trem não saia dos trilhos, porem quando ao longe as crianças viram o trem apitar elas se embrenharam no mato assustadas. Após a passagem do trem, os pais, tiveram que buscar os filhos no meio do mato. A avó de Lili conta que não fugiu, mas que segurou com muita força na calça do pai...  Outros tempos!
2 – Num determinado período teve uma professora (Isabel) que ia em sua  casa lhes ensinar. Num desses dias receberam a visita de um “cumpadre”, que ao vê - las escrevendo com o lápis disse:
- D. Isabel, quando a Sra. tiver um “Pauzinho” desses que a Sra. não vai ocupar muito a Sra. leva lá em casa para eu fazer um desenho?  
3 – Um parente dela que pertencia a Irmandade do Santíssimo aqui em SJCampos, mas que morava em S.José do Barreiro, numa de suas vindas para São José numa Sexta Feira Santa, ficou descontente com as camisas que a filha lhe havia aprontado para a viagem. A filha querendo consertar a situação resolveu lavar a camisa e foi rumo ao rio com o sabão e a bacia nas mãos.  Assim que começa a passar o sabão na camisa  percebe um risco vermelho. Não se dando conta do que podia ser, torna a passar o sabão na camisa e novamente o risco vermelho reaparece. Assustada percebe que é sangue e que as Sextas Feiras Santas não se pode lavar roupa, larga a camisa e o sabão na beira do rio, apodrecendo...

Quando se mudou para o Jardim Ismênia, lá não havia Igreja, havia somente um lote cheio de mato. O dono do lote ao ser inquirido do valor do mesmo para a venda  disse querer a quantia de 12 contos . O Padre José Paduan, da Paróquia do Colonial( que lhes prestava assistência espiritual), comentou com seu marido  que  tinha 12 contos para receber, mas ia demorar um pouco. O dono do lote porem só venderia por 12 contos naquele dia, se fosse no dia seguinte seria mais caro. O esposo de Lili confiando no padre  colocou sua casa em garantia e retirou os 12 contos para comprar o lote. Pouco tempo depois o Padre recebe os 12 contos e resgata a casa de Lili e José Benedito.
“Hoje no local ergue se “a “ Capela do Divino “.

Obs : Cançao que D. Lili Figureira diz ter aprendido com os pais. Quem teria ensinado foi o avô que era estrangeiro... Ingles ?
“Num só sentimento unidos,cheios da mesma alegria,
digamos unindo as vozes, a universal  harmonia.
Coro brilha no seu estrelado, do cruzeiro a constelação.
Altivos de nossa fé , de Cristo vendo os primores,daquela que excede a todos, digamos entre louvores:
Coro brilha no céu, da virgem proclamamos, a ventura sem igual,e celebrando a digamos,neste hino triunfal “

(Colhido por Doris / Quaresma 2012)

O Sumiço do Lobisomem


Você sabe porque hoje em dia quase não tem mais lobisomem? É porque as mulheres tem menos filhos... (Benê)

( Segundo as lendas o lobisomem é o sétimo filho de uma familia de 6 homens, em outras localidades de 6 mulheres).










Sobre Folclore

"A tradição e o folclore estão no quintal de nossa casa e a gene não vê" ( Benê)

PARA CHOVER DE MANSINHO...

D. Al. de São Luiz do Paraitinga me ensinou:

- Só é para rezar quando tiver nuvem pesada. Não é qualquer chuvinha não!
Para se proteger reze um “Pai Nosso” primeiro e depois essa oração:

“Ao ver Jesus a tempestade cessa,
Ao ver Jesus as lágrimas se vão,
Ele transforma sua vida,
Iluminando a negra escuridão”.


Pode fazer e esperar com fé que as nuvens vão branqueando, vai subindo e subindo e espalham. Daí vem a chuva, mas chuva mansa”

SOMOS TODOS PIRAQUARA

"Toda pessoa que chega em São José dos Campos, abre um chuveiro e toma uma ducha, está sendo “batizada” com a água do “Rio Paraíba do Sul”... e  neste momento ela vira um “Piraquara.” ( Elder Prata)

sábado, 4 de maio de 2013

Sobre Iças e Bitus


Dizem que o povo do Vale do Paraíba tem o costume de comer “formigas”.

Bem não é qualquer tipo de formiga. São Içás, também conhecidas como Tanajuras; a femea da saúva. Os machos são os bitus.

Quem mora por aqui não se admirou quando em maio deste ano a ONU sugeriu “Comer insetos” para reduzir a fome no mundo.

Aqui no Vale do Paraiba para muitos é um prazer e um privilégio... Um manjar !

Somente devemos ficar atentos para não comer as Iças provenientes de lugares onde foi usado algum tipo de inseticida.

Encontrei na internet este texto que copio abaixo na integra por ser muito interessante.

E... Sim! Já comi Iça !

Vamos ao texto :

 “Saúva ou saúba. Chamada carregadeira, sabitu, formiga de roça. As fêmeas chamam-se tanajuras e constituem acepipe tradicional”.
Luiz da Câmara Cascudo

   Uma das tradições indígenas que resiste em toda a região do Vale do Paraíba, é o hábito de caçar e comer içás no mês de outubro, costume que remonta aos primórdios da colonização portuguesa no Brasil. No Maranhão, Frei Ivo d’Evreux, no século XVII, teve a oportunidade de assistir a uma caçada às formigas: “Caçam os selvagens somente as formigas grossas como um dedo polegar, para o que se abala uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e raparigas. A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde ia tão apressada gente, deixando suas casas para correr após as formigas voadoras, as quais agarram, metem-nas numa cabeça, tiram-lhe as asas para frita-las e comê-las” (1).

  O Barão de Eschwege, em seu livro “Diário de uma Viagem do Rio de Janeiro a Vila Rica, na Capitania de Minas Gerais no ano de 1811”, registrou o hábito paulista de comer içás: “Ao começar o tempo mais quente do ano, isto é, em outubro, aparecem com asas as formigas grandes, que julgo serem as fêmeas; reúnem-se então aos milhares, à entrada do formigueiro e dali voam em enxame; entretanto, esse estado alado não dura muito; assim cai uma após outra do bando, espalham-se por toda a região. Cada uma, desde que perde as asas, logo trata de cavar a toca e estabelece o novo formigueiro. Na Capitania de São Paulo chamam tanajuras tais formigas. Costuma-se comer as grandes, separar a parte superior e assá-las na frigideira, com toucinho, não sendo mau o seu paladar” (2)

  Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcellos, 4º Conde de Assumar e 3º Governador e Capitão-General da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, viajando da cidade de São Paulo para Vila Rica de Ouro Preto, no mês de outubro de 1717, pela Estrada Real do Vale do Paraíba, pernoitou em um rancho de beira de estrada, próximo da Aldeia de São José do Parahyba, atual cidade de São José dos Campos, registrando em seu diário de viagem: “o dono do rancho era um paulista, o qual com generoso ânimo ofereceu a S. Exa. Para cear meio macaco, e umas poucas de formigas, que era com tudo quanto se achava. Agradeceu-lhe S. Exa. a oferta, perguntando a que sabiam aquelas iguarias, respondeu que o macaco era a caça mais delicada que havia naqueles matos circunvizinhos, e que as formigas eram tão saborosas, depois de cozidas, que nem a melhor manteiga de Flanders lhe igualava”.(3)

  O naturalista inglês Charles Frederik Hartt, andando pelas selvas da Amazônia em fins do século XIX, escreveu: “Quando estive na Amazônia, ouvi muitas vezes gabar o gosto da saúva. O sabor picante torna completamente impossível o uso da saúva para outro fim que não seja o da especiaria ou condimento. Adicionadas ao molho de tucupi, estas dão-lhe um gosto muito agradável, como posso asseverar por experiência própria”. (4)

  Em algumas regiões do Brasil, a içá é torrada, moída e usada como chá, para combate a amidalite e qualquer outro tipo de irritação da garganta. No nordeste brasileiro, a içá é considerada um prato afrodisíaco, aconselhado às pessoas portadoras de inibição sexual e na linguagem popular, tanajuras são as mulheres que tem as nádegas muito grandes.

  Monteiro Lobato, em carta a uma prima, moradora em Taubaté, no Vale do Paraíba, escreveu que “a içá é o caviar do povo de Taubaté”.

  Eis trechos dessa carta:

  “Recebi a latinha da içá torrada... Para mim foi muito bom, porque me rendeu o bilhetinho com o pedido, em troca da içá, de um pensamento sobre a içá...
A sugestão me pertubou, porque nunca no mundo ninguém jamais “pensou” sobre a içá – e pelo jeito é realmente coisa “impensamentável”. Mas, já que me pede, faço um esforço e digo que a içá é o caviar da gente taubateana.

  Como você sabe, o famosíssimo e apreciadíssimo caviar da Rússia é a ova dum peixe de nome esturjão; o que é o abdômem (vulgo bundinha) da içá senão a ova da formiga saúva?” (5)

  Em “Caminhos e Fronteiras”, Sérgio Buarque de Holanda faz o seguinte comentário: “...A içá torrada venceu todas as resistências, urbanizando-se mesmo, quase tão completamente como a mandioca, o feijão, o milho e a pimenta da terra. Pretendeu-se que os jesuítas, no intuito de livrarem as lavouras da praga das saúvas, tivessem contribuído para disseminar entre os paulistas o gosto por essa iguaria.

(Clique na imagem para ampliar)

  Nada há de inacreditável em tal suposição, uma vez que já os primeiros escritos de missionários inacianos em terra brasileira, mencionam a içá como prato saboroso e saudável...” (6)

  Caçada e comida de formas diferentes, a içá constitui a alegria e a delícia das populações rurais e urbanas do Vale do Paraíba e durante o mês de outubro, nas tardes quentes e abafadas, crianças, mulheres, velhos e adultos, com varas, galhos de árvores e mesmo com as mãos, ocupam os morros e vales, perseguindo e catando as içás, que, aos milhares, fazem o seu vôo nupcial, atraindo pássaros e homens em busca de alimento, proteína e divertimento, perpetuando uma tradição milenar indígena. As içás, depois de mortas, sem as asas, o ferrão e as pernas, são lavadas em água corrente e torradas com um pouco de gordura ou óleo e sal. Também podem ser comidas como farofa ou fritada e ainda guardadas em latas bem fechadas para serem comidas durante o ano.
Em Silveiras, a Fundação Nacional do Tropeirismo, promove todos os anos, no mês de outubro, o “Festival da Içá”, atraindo pessoas de todas as regiões do Vale do Paraíba e até mesmo de São Paulo e do Rio de Janeiro, para saborearem o delicioso petisco.

José Luiz Pasin

Notas:
1 – Déuvreux, Frei Ivo – Viagem ao Norte do Brasil. Introdução e notas de Ferdinand Denis. Rio de Janeiro, 1929.
2 – Eschwege, Barão de – Diário de uma viagem do Rio de Janeiro a Vila Rica, na Capitania de Minas Gerais no ano de 1811. São Paulo, Revista do Museu Paulista, Volume XXI, 1937, p. 888/889.
3 – Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Rio de Janeiro, volume 3º, 1939, p. 307/308.
4 – Hartt, Charles Frederik – Contribuição para o Estudo da Etnologia do Vale do Amazonas. Rio de Janeiro, Revista do Arquivo do Museu Nacional, volume 125, 1885.
5 – Florençano, Paulo Camilher & Abreu, Maria Morgado –Culinária Tradicional do Vale do ParaíbaCentro Educacional Objetivo, Fundação Nacional do Tropeirismo e JAC Editora. Taubaté, 1992.
6 – Holanda, Sérgio Buarque de – Caminhos e Fronteiras. Livraria José Olympio Ed. – Coleção “Documentos Brasileiros”. Pág. 64. Rio de Janeiro, 1957.

NOTAS DO MUSEU FREI GALVÃO
- A ilustração é de autoria de Paulo Camilher Florençano. Está na pág. 33 do livro “A culinária tradicional do Vale do Paraíba”, de sua autoria e de Maria Morgado de Abreu. Taubaté, 1992. Publicado pelo Centro Educacional Objetivo, Fundação Nacional do Tropeirismo e JAC Editora.
- O mesmo livro, à pág. 91, traz a receita do preparo da içá, à moda de Taubaté: “Limpam-se as içás das perninhas e cabeças. Em seguida, põe-se de molho em água e sal por cerca de ½ hora. Escorre-se bem e leva-se ao fogo, em frigideira com gordura mexendo-se sempre para não queimar. Quando estiverem bem torradas, acrescenta-se farinha de mandioca, mexendo-se sempre, resultando a farofa, já pronta para ser comida acompanhada de café. Se quiser, coloca-se em pequeno pilão, juntando-se a farinha a gosto, daí resultando uma paçoca de içás”.
- É costume no Vale do Paraíba, que, ao caçar a içá, deve-se repetir a seguinte frase, com ritmo característico, selecionando as formigas:
    Içá pra baixo
    Sabitu pra cima...
- No Estado do Rio de Janeiro a içá é também chamada de Vitu ou Bitu, daí a cantiga:
    Cai cai bitu
    Cai cai bitu
    Aqui na minha mão...
Conselho final: para se caçar içá à beira do formigueiro, sem ser mordido, deve-se ficar com os pés dentro de uma bacia com água.



Pe. Anchieta e o Bumba meu Boi


Cida  contou que o folguedo “Bumba meu Boi” foi escrito por Padre Anchieta:

- Anchieta  para explicar aos índios o que era a  ressurreição fez esse teatro.

Ele atemorizava os indígenas com essas palavras:

- Não pequem porque senão vocês vão para o fogo do inferno e lá é um fogo que não acaba, nunca mais, sempre fogo!

ao que os índios respondiam:

- Nossa ! Mas que coisa boa, então não vamos ter de catar lenha!

O índio não tinha noção de pecado. Uma pureza ! Só caçar, pescar , criar os filhos, não tinham ganancia nem ambição, orgulho.

obs : Anchieta, usou estas alegorias  para fins religiosos, políticos, econômicos e sociais.