sábado, 31 de agosto de 2013

SALMO 23 - VERSAO CAIPIRA


" O Sinhô é meu pastô e nada há de me fartá!
Ele me faiz caminá pelos verde capinzá.
Ele tamém me leva pros corgos de água carma.
Inda que eu tenha qui andá nos buraco assombrados, lá pelas encruzinhada do capeta;
não careço tê medo di nada, a  modo di quê,Ele é mais forte que o "coisa ruim".
Ele sempre nos aprepara uma boa bóías na frente di tudo quanto é inimigo.
E é assim que um dia quando a gente tivé mais pra lá do qui prá cá, nóis vai morá no rancho do sinhô pra inté nunca mais se acabá. Ameim!

 PARA COMPARAR AQUI VAI O ORIGINAL

SALMO 23

" O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva me para junto das águas de descanso, refrigera  minha alma. Guia me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo, o teu bordão e o teu cajado me consolam.
Preparas-me uma mesa na presença dos meus inimigos, unges me a cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre. Amem!


Avô Escravo


" O meu vô era escravo.
Minha avó criou meu vô e se casou com ele...
Na senzala era assim: ficavam todos os pretos no mesmo lugar e ai para eles não passarem frio eles faziam uma fogueira no centro e domia um assim abraçado com outro"
Dava dó do meu vô!
Meu vô sempre contava." 



Mestre Paizinho : Basta Cantar com o Coração

 
Ele é o Mestre  da “Companhia de Moçambique Unidos a São Benedito do Parque Bandeirantes de Taubaté”. Tradição herdada do avô há 65 anos e que era descendente de escravos. Durante a entrevista ele conquistou a todos com seu jeito simples e carismático e nos relatou os conselhos que recebeu de seu pai:

“ Filho, esteja você onde estiver, nunca deixe a vaidade ou a ambição falar acima daquilo que você não é, porque se você deixar isso acontecer então todo aquele ensinamento, a sua identidade, você vai estar jogando “pros lixos”. Então seja você mesmo, tanto numa escola rica ou numa escola simples.”

Num determinado ano o pai lhe disse que ele seria o Mestre da Companhia de Moçambique.

Mestre Paizinho disse ao pai que não daria certo ele cantar como Mestre porque iria ficar nervoso e “gaguejar”. O pai lhe respondeu: 

“Filho, basta cantar com o coração.” 

E então ele  nunca mais parou de cantar como Mestre.

(colhido por Doris)



UM POUCO DO CORPO SECO E DE MARIA PEREGRINA

Estavamos no cemitério Maria Peregrina no dia de Corphus Christi e uma senhora me contou :

- Minha mãe trabalhava na lavanderia do Vicentina Aranha

- Eu me lembro das Festas no Vicentina Aranha. Lembro das Festas de Corpus Christi. As freiras diziam: quanto mais gente melhor para trabalhar. Aumenta a produtividade para se fazer os tapetes da produção.

- A gente usava cedrinho, era linda a procissão!

- do Padre Rodolfo a gente sabe que ele andava na chuva e não se molhava. Ele veio se tratar de tuberculose em São José dos Campos. Era um Padre Santo mesmo e muitos alcançaram graças com ele. O Seu João Porto conviveu com ele.

- Meu pai ajudava o Dr. Estrepe a fazer autopsia nessa capela (Cemitério de Santana). Naquela época não tinha geladeira, então o corpo tinha bicho, mosca e aquele mau cheiro terrível!  Eles tinham de beber pinga para poder suportar o cheiro.

- Um dia ele estava exumando o corpo de um cadáver junto com seu companheiro que se chamava “Ceguinho”, (porque tinha os olhos meio fechado), foram desenterrar um defunto. Dizia que o corpo estava todinho seco e aí o amigo dele tirou o canivete e foi cortar e não conseguia... E o canivete rangia... Quuiiii quuiii quuiiii e não conseguia cortar.

- O corpo seco era devido à pessoa tomar remédio... O Corpo seco fica pelo mundo.
Meu pai se chamava “s. c. s.”. Ele dizia que tinha coragem de carregar o Corpo Seco nas costas...

- A Maria Peregrina eu conheci.
Minha tia morava ali perto onde ela residia debaixo de uma arvore que ela morava e ela tinha um saco dela com as coisas dela, a roupa tudo!  A gente criança tinha medo dela, sabe por quê? As crianças perseguiam ela, jogavam pedrada nela, né? Ela ficava brava com eles! Então a gente tinha medo de fazer alguma coisa na gente.
As pessoas ajudavam ela, davam alimento.
As crianças... Umas tinham medo, outras jogavam pedra nela. Os meninos principalmente.
Ela não mexia com ninguém, sabe...
As pessoas falavam para ela... De dar lugar para ela ficar. Ela dizia que tinha de morar debaixo de uma arvore para pagar a promessa pra mãe dela se salvar.
Porque a mãe dela fez não sei o que lá...
Ela dizia: Eu tive essa sina de pagar os pecados da minha mãe para ela não ir para o inferno.
As pessoas queriam acolher ela, dar um cantinho... Mas ela não queria!

É uma reviravolta...  Você se vê adulta, vem no cemitério com os filhos e vê o tumulo dela sendo estudado por jovens...


D. LILI E O PAUZINHO COLORIDO


Quando D. Lili era mocinha e morava na fazenda o pai contratou uma professora para lhe dar aulas.


 Um dia, enquanto estava tendo aula, os cadernos e lápis de cor estavam espalhados sobre a mesa, chegou um menino muito pobre que se sentou perto de onde D. Lili tinha a aula e ficou um bom tempo observando D. Lili e a professora.

Finalmente ao fim da aula ele se dirigiu em tom baixo, quase como a contar um segredo e disse para D. Lili:

- “quando você tiver um pauzinho desses que você não vai ocupar muito você me empresta?”


(ele não conhecia o “lápis de cor” e ficou encantado com aquele “pauzinho colorido”.

(colhido por Doris)

FANTASMAS NO PARQUE DA CIDADE

Noite muito fria de junho, estamos saindo do Atelier do Grupo Piraquara no Parque da Cidade! Uma neblina repentina baixa sobre a cidade. 
O frio, à noite, o parque vazio, pouca luz e a neblina montaram o cenário perfeito para o Bene se lembrar de que os vigias tinham algumas histórias para me contar.
M. e W. nos contam que o Parque tem seus fantasmas. Ele já os viu por diversas vezes. São vários. Não sabe o “porque” ou “para que” eles aparecem, mas o certo é que depois da meia noite estes seres surgem.
Uma mulher de longos cabelos negros usando um longo vestido branco. Braços caídos, sempre descalça costuma aparecer após a meia noite. Sempre de perfil. Assim que é notada corre e some na escuridão. O guarda anterior foi embora...Uma noite, durante a ronda deu de cara com ela sentada na mureta do Museu... chorou... passou mal... não quis mais trabalhar ali... nunca mais voltou!


Dizem que outro  “assíduo fantasma” é um grande cachorro preto. Certo dia W. tentou enxota- lo  até perceber que o tal cachorro não era ser desse mundo. O guarda correu para se esconder dentro de um dos galpões do parque.


Em outro dia M. estava dentro da sala de segurança e vigiava o Parque enquanto seu amigo fazia a ronda.  Viu pelo monitor um Sr. bem alto, todo vestido de preto, usando um chapéu também preto. Este Sr. foi até o portão colocou a corrente no portão, enfiou o cadeado na corrente, mas não fechou o cadeado...M. assustado com aquele Sr. andando a noite no parque “passou um rádio” para avisar seu amigo a ir atrás dele e manda lo embora. O amigo procurou... procurou... e não encontrou ninguém.
Na volta o amigo viu a corrente com o cadeado quase trancado e reclamou com o M.:


- Você queria me prender lá fora?


- Não fui eu... foi um homem vestido de preto!


Uma noite dessas, altas horas, o B. passou um rádio para todos os vigias do parque procurarem por três crianças que ele estava vendo no monitor.  Pareciam estar perdidas!  Os guardas procuraram... procuraram... não acharam ninguém.


Segundo  M., em São José existem outros locais repletos de fantasmas: o sanatório "Vicentina Aranha" é um deles.


Altino Bondesan em seu livro “São José em Quatro Tempos” nos fala dos sanatórios assim:“Os sanatórios são ilhas de sofrimento, ou de esperança, onde vivem os filhos do infortúnio...”.“... episódios dolorosos de sofrimento não faltam...”.


Quantas pessoas sofreram dentro daqueles prédios, quantos jovens passaram sua juventude sentados naquelas cadeiras de lona, angustiados, sem esperança, sem um familiar ao seu lado esperando a cura, nutrindo uma esperança que se esvanecia cada vez que via o seu colega de quarto morrer?


 Não é para menos que M. nos fala que após trabalhar no Vicentina Aranha como vigia por dois anos:


- “tem cada coisa lá que é inacreditável!”


Fazendo sua ronda noturna ele ouviu as janelas do pavilhão principal bater. Pediu para o carpinteiro consertar. 
De fato durante o dia viu o carpinteiro pregar enormes pregos na janela, mas naquela mesma noite voltou a ouvir... plác, plác, plác...
Imediatamente pensou ser outra janela com o mesmo problema da que fora consertada naquele dia, porem ao chegar no local  percebe que é a mesma janela, novamente aberta, sem os enormes pregos colocados aquela tarde: plác, plác, plác!


E se você for lá a noite com certeza ouvirá...plác, plác, plác...


Atualmente o Vicentina Aranha é um local aprazivel frequentado por muitas pessoas que gostam de fazer suas caminhadas entre suas belas árvores e é porisso que todos nós conhecemos aquela pequena construção que parece uma Capela, localizada na saida da Avenida 9 de julho: o antigo necrotério; sempre fechado!


De madrugada, depois da meia noite dizem que com certeza você ouvirá estranhos barulhos vindo do prédio.
Você ouve gemidos , pessoas , moveis que parecem estar sendo arrastados!
Certa noite ele saiu decidido a descobrir o que eram aqueles barulhos.  Pegou a chave do necrotério, pôs no bolso e começou a ronda. Ao passar pelo pequeno necrotério novamente ouve os barulhos. Pega a chave, abre a porta, acende a luz e nada... absolutamente nada... nem bichos, ratos, aves, nada! Segundo ele não havia nada lá dentro que poderia provocar estes sons! 
Apaga a luz, tranca a porta e... o barulho inicia novamente...


Talvez existam pessoas mais propensas a ouvir e ver esses fantasmas: M. talvez seja um deles!


Há mais ou menos um ano atrás, M. e seu cunhado perderam um grande amigo comum. Ele ainda era funcionário do “Vicentina Aranha” e estava na portaria assistindo TV.
De repente aparece na sua frente o seu amigo recentemente falecido! Ele se assusta mas recebe o recado do fantasma que deve ser transmitido ao cunhado.
Ainda assustado assim que “o amigo falecido” desaparece ele liga para o cunhado e passa o recado:


- Oh cunhado, aquele nosso amigo falecido apareceu para mim e mandou te dizer que ele ficou te devendo algo e quer te pagar!


O Cunhado após o choque inicial começou a pensar.
Pensou, pensou e só então se lembrou de que o defunto  de fato lhe devia R$ 1.000,00 reais.
Morto de medo o cunhado respondeu:


- Arre! esquece... fala para ele que já está pago!(sabe se lá como seria essa transação, não acha?).


Segundo W. alguns atores que ensaiam teatro nos palcos do Parque costumavam rir de casos assim. Não acreditaram nele quando ele disse ter visto o enorme vaso de jardim se arrastar pelo chão de um lado para o outro, até o dia que os atores ensaiavam uma apresentação. De repente vários deles viram uma estranha mulher surgida do nada que caminhava com os braços cruzados por sobre o tablado, indo e vindo, indo e vindo até que assim como veio, ela sumiu! 

Todos ficaram assustados... e o W.concluiu :


- “A gente falava para eles (os atores), eles riram! Agora? Eles viram!”.


A neblina continua a baixar. Todos nós estranhamos a névoa cair tão rapidamente sobre a cidade. Mais que depressa resolvemos ir embora...
e nesta noite a neblina foi muito densa em toda a cidade ...
(Colhida em 28/7/2012) - Doris


DE MAE PARA FILHA / O COMEÇO DE UMA TRADIÇÃO

Um jovem marido perguntou a sua esposa se ela sabia fazer aquela receita de “filet mignon” como sua mãe havia feito para ele antes de se casarem. A esposa respondeu que sim!
De fato,  no domingo ela fez o “filet mignon” conforme sua mãe havia lhe ensinado.
Comprou o “filet mignon”, cortou as pontas do filet, deixando somente o palmito, temperou conforme sua mãe lhe ensinara e assou.
A carne ficou muito boa e o marido ficou contente  porem curioso perguntou a esposa:

- Esposa querida, porque você cortou as pontas do” filet mignon”?

A esposa respondeu:

- Foi assim que aprendi. Minha mãe fazia desse modo e então eu faço do mesmo jeito!

Curioso o marido da jovem esposa foi perguntar a sua sogra:

- Querida sogra, sua filha preparou para mim aquele “filet mignon” que você prepara divinamente e também ficou muito bom, porem eu gostaria de saber por que você ensinou a ela a cortar as pontas do “filet mignon”?

A sogra respondeu:

- Meu querido genro. Foi assim que aprendi com minha mãe, e então eu faço do mesmo jeito!

Intrigado o jovem marido foi até a avó de sua esposa e perguntou:

- Querida avó de minha esposa! A sua neta preparou para mim aquela receita de família do “filet mignon”. Ficou muito boa, mas eu queria saber o porquê vocês cortam as pontas do “filet mignon”!

A avó da esposa respondeu:

- Querido marido de minha neta. Eu não sei o porquê elas cortam as pontas do “filet mignon” quando preparam a carne, eu cortava porque a minha panela era pequena e não cabia um “filet mignon” inteiro!

Vai-se entender quais são as lógicas de uma tradição... rs rs


(colhida por Dóris Bonini de A.S/agosto 2013)